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LIBERDADE

Manuele Bandeira
Renata Macambyra

 

O bairro da Liberdade está situado no alto do planalto que divide Salvador em Cidade Alta e Cidade Baixa, religadas por meio do Plano Inclinado. Possui aproximadamente 190 hectares de área, abrangendo localidades como Soledade, Lapinha, Sieiro, Japão, Duque de Caxias, Curuzu, Cravinas, Bairro Guarani, Alegria, Jardim São Cristovão, São Lourenço e parte do Largo do Tanque e da Baixa do Fiscal.

No dia 2 de julho de 1823, combatentes que lutaram pela independência da Bahia marcharam vitoriosos pela Estrada das Boiadas, trilha de terra que unia a cidade de Salvador às demais províncias. Esse caminho também servia à passagem de gado bovino criado no interior destinado à comercialização na capital, donde a sua denominação de Estrada das Boiadas, que, com a marcha das tropas vencedoras, torna-se Estrada da Liberdade. Por essa razão, o bairro onde tal acesso se localiza possuir o mesmo nome.

Acompanhando o crescimento da cidade de Salvador, para onde se dirigia a população rural a fim de fugir da seca que assolava o interior do Estado, o processo de expansão da Liberdade se iniciou nas primeiras décadas do século XX, tendo como via de irradiação desse crescimento a Avenida Lima e Silva, ainda hoje a principal avenida do bairro, que concentra um número significativo de estabelecimentos comerciais e de serviços. Diante desse quadro, na terceira década do século XX, já havia quatro chácaras, situadas no Curuzu, ocupando uma grande parcela da área do bairro.

Paulatinamente, a população da Liberdade aumentou devido ao loteamento e venda das chácaras. Por ser próximo ao centro comercial e financeiro soteropolitano (na época, a Rua Chile e o Comércio), o bairro oferecia um acesso mais fácil ao trabalho, contribuindo para que as pessoas ali desejassem se instalar. A partir desse momento, a ocupação se deu desordenadamente através de invasões, favelização e subsequente urbanização das moradias, por isso é possível encontrar ainda hoje pontos do bairro carentes de infra-estrutura e de saneamento básico. Apesar dos inúmeros problemas sociais, a Liberdade consolidou-se como um relevante subcentro da cidade.

Com uma população majoritariamente afro-descendente, a Liberdade é o maior bairro negro do mundo fora da África. O processo massivo de ocupação negra da área que hoje constitui o bairro se iniciou com a chegada de libertos e ex-escravos, no final do século XIX, após a abolição da escravatura. Antes disso, a localidade era composta por roças onde eram criados bois e vacas. Nas primeiras décadas do século XX, a Liberdade já se assemelhava a um quilombo, de acordo com Hilda dos Santos, a "Mãe" Hilda, líder espiritual da comunidade do Ilê-Ayiê-Curuzu: "Todos os moradores eram negros. Algum escravo liberto. Tinha muitos que eram africanos mesmo, mas a maioria era filhos deles, os filhos da escravidão."

Com base nos dados do Censo 2000, a população do bairro é de 39.322 moradores, considerando-se como marcos a primeira casa da esquina da Praça da Soledade e o Largo do Tanque. Já na Grande Liberdade, ou Região Administrativa IV (a RA IV) em que estão incluídas as áreas de Pero Vaz, Caixa d'Água, Pau Miúdo e IAPI, a população gira em torno de 187. 477, de acordo com a Secretaria Municipal do Planejamento, Urbanismo e Meio Ambiente (SEPLAM), ficando atrás, em termos populacionais, apenas da Cajazeiras. A RA IV também apresenta a maior densidade demográfica da cidade, com 260,3 habitantes por hectare.

Na tentativa de atender ao grande contingente populacional do bairro, serviços que, até então, apenas eram oferecidos no centro de Salvador passaram a ser implantados na Liberdade. Dessa maneira, sem precisar sair do bairro, os moradores têm acesso às lojas de departamento, a grandes supermercados, às agências bancárias, dentre outros. Além disso, a Liberdade conta com um shopping center, o Shopping da Liberdade, que possui uma excelente localização, podendo ser facilmente visualizado da Baía de Todos os Santos.

A Feira do Japão é outro ponto bastante conhecido dentro e fora da Liberdade. Localizada em umas das transversais da Avenida Lima e Silva que corta o bairro, a Feira do Japão tem o seu começo marcado por uma placa azul com o seu nome. De acordo com registros da Secretaria Municipal de Serviços Públicos, a Feira do Japão surgiu há cerca de cinquenta anos, numa região anteriormente conhecida como Largo do Japão, com a chegada de grupos de japoneses que instalavam no local seus comércios informais. Atualmente, os moradores encontram nela uma variedade de produtos, como frutas, verduras, frutos do mar, carnes e temperos, de boa qualidade e preço mais acessível do que o dos supermercados. Uma de suas características mais marcantes é a ausência de cuidados básicos com a limpeza dos alimentos, do que resulta um odor muito forte, além da umidade no asfalto, em razão de os feirantes estarem sempre molhando os seus produtos. Dessa maneira, em setembro de 2007, a feira sofreu uma apreensão de carnes pela Vigilância Sanitária, por falta de higiene na comercialização. Na Feira do Japão, há também espaço para o comércio de artigos de candomblé e umbanda, religiões bastante difundidas entre a população da Liberdade. Somente na Rua do Curuzu, existem dezesseis terreiros de candomblé, dentre eles, o Ilê Axé Jitolu, internacionalmente conhecido, fundado pela Mãe Hilda Jitolu.

Sobre a Rua do Curuzu, o Censo Empresarial, construído pelo Sebrae no ano de 2005, detectou que a informalidade atinge 60% das atividades do local. Assim, num total de 378 atividades, apenas 152 são formais contra 226 informais. A pesquisa também revela que 299 negócios são puramente empresariais e 79 são de cunho cultural e social. A maioria dos empreendimentos (69,8%) tem faturamento mensal de até R$ 1 mil. De acordo com o censo, os 378 empreendimentos que existem no Curuzu ocupam 1.433 pessoas, das quais 40% são registradas, têm carteira assinada. O setor de serviços prevalece no bairro, correspondendo a 63% das empresas. É possível ver em postes espalhados ao longo do bairro diversos cartazes com anúncios de prestação de serviços informais. As atividades de cunho social e cultural são as que geram mais ocupação, contudo muitas delas são de caráter voluntário. É o caso da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, que trabalha em prol da valorização e da inclusão da população negra, prestando serviços comunitários, como cursos de artesanato, música, dança e culinária, oferecidos aos moradores do Curuzu. O Ilê Aiyê, que na língua nagô significa "A Casa do Barro Preto", é o bloco afro mais antigo e famoso do Carnaval de Salvador, e tem seu berço, juntamente com outros blocos afros, como o Muzenza, no bairro da Liberdade.

Atualmente, a Liberdade exerce um forte apelo turístico por conta das raízes históricas da cultura negra. Por conta da representatividade étnica e cultural, foi considerado pelo Ministério da Cultura território nacional da cultura afro-brasileira.

Quanto à proveniência dos moradores da Liberdade, sabe-se que uma parcela considerável deles consiste em pessoas vindas do interior do Estado, que se misturam entre as que nasceram no bairro. Para a constituição do corpus desta pesquisa, foram escolhidos aleatoriamente 18 informantes, 9 homens e 9 mulheres, dentro do nível de escolaridade e das faixas etárias propostas pela pesquisa, isto é, informantes analfabetos ou semi-analfabetos com no máximo quatro anos de escolaridade e homens e mulheres com idades entre 25-35 anos, para a Faixa 1; 45-55 anos, para a Faixa 2; e mais de 65 anos, para a Faixa 3. Os informantes selecionados foram aqueles que nasceram no bairro e não se ausentaram dele por um período maior do que seis meses. Buscou-se, com isso, resgatar uma relação de identidade do morador com o bairro, o que caracterizaria a variedade local, por ser o bairro uma região tradicional e repleta de particularidades.

Por ter um perfil econômico diversificado, a Liberdade absorve uma grande parte da mão de obra disponível na região, sobretudo o comércio intenso da Avenida Lima e Silva, a espinha dorsal do bairro. Uma outra parcela de moradores exerce atividades nos bairros circundantes, como Nazaré, Barbalho, Comércio, Centro Histórico e adjacências. Desta maneira, a rede de relações dos moradores da Liberdade é ampla, tendo em vista que mesmo aqueles que concentram suas rotinas dentro do bairro estabelecem contato social direto com um número muito grande de pessoas. Assim, para a pesquisa, foram privilegiados os moradores que tivessem uma  rede de relações dispersa, isto é, quem trabalhasse fora do bairro ou quem estivesse ligado a atividades no interior do bairro de caráter eminentemente social, como o comércio.

As entrevistas foram feitas entre os dias 01.08.08 e 09.01.09. Dentre as dificuldades encontradas ao longo da constituição do corpus, esteve a procura por moradores nascidos no bairro, uma vez que o fluxo de pessoas provenientes de outras localidades é intenso e o número de moradores advindos do interior do Estado é considerável. Além disso, com a difusão do sistema de ensino e de mecanismos que facilitam a aquisição de certificados de escolaridade, encontrar informantes assumidamente semi-analfabetos foi uma tarefa relativamente custosa.

A violência também consistiu num obstáculo para a pesquisa. Em oposição às ruas mais centrais, próximas à Avenida Lima e Silva, há, na Liberdade, uma série de ruas e becos que dão acesso a áreas consideradas perigosas pelos próprios moradores, que recomendavam distância de locais como Santa Mônica, Sete de Abril e Avenida Peixe. O Pero Vaz, local onde algumas das entrevistas foram realizadas, foi citado entre os informantes como de alta periculosidade, com ligação com as conhecidas "bocas", pontos de tráfico de drogas. No período de realização das entrevistas, uma chacina deixou três mortos e seis feridos no bairro Guarani, definida pelo então secretário de segurança pública, César Nunes, como "mais uma guerra de tráfico".

Dentre os locais em que as entrevistas foram feitas, destacam-se a Rua do Curuzu, o Pero Vaz, IAPI, a Feira do Japão e a Avenida Lima e Silva. A falta de segurança foi, portanto, um tópico recorrente nas entrevistas. Foram abordados também assuntos ligados à história do local, ao carnaval, à cultura negra e a outros problemas sociais e de infra-estrutura inerentes à maioria dos bairros populares. Apesar das queixas, muitos informantes afirmaram não sentir vontade de sair do local, o que evidencia um forte apego ao bairro da Liberdade e à sua mística particular.

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