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ITAPUÃ

Lanuza Lima
Luanda Almeida

 

A origem do nome Itapuã vem da língua tupi e tem como significado "pedra que ronca", moradores antigos relatam que existia uma pedra que, antes de se partir, roncava na maré vazante. Localizada em uma espécie de enseada formada por águas límpidas, o bairro de Itapuã tem o mar tranquilo e uma orla repleta de coqueiros. Sabe-se que, antigamente, existia uma pequena vila de pescadores que exploravam a pesca da baleia, para produzir óleo refinado, o qual era utilizado na iluminação pública.

Na década de 50, Itapuã era apenas uma colônia de pescadores em uma região afastada do centro de Salvador (cerca de vinte e cinco quilômetros). Itapuã está situada após o bairro de Piatã e faz limite com o município de Lauro de Freitas. A parte mais antiga do bairro é onde se encontra a estátua da Sereia de Itapuã, monumento construído pelo artista plástico Mario Cravo em homenagem aos pescadores e aos elementos que identificam o mar, localizado no cruzamento entre as Avenidas Otavio Mangabeira, Dorival Caymmi e a Rua Aristides Milton.

Em Itapuã encontramos o Parque Metropolitano do Abaeté, inaugurado em 03 de setembro de 1993, situado dentro de uma área de proteção ambiental, com cerca de 12 mil metros quadrados, e é onde se encontra a mais famosa lagoa de águas escuras da cidade: a Lagoa do Abaeté ou "lagoa tenebrosa", nome de origem indígena, supostamente tupi. Antes, as pessoas do bairro a usavam para pescar e lavar roupas, hoje, com o incentivo à preservação do meio ambiente, os moradores "sobrevivem" com o turismo. Todavia, praticantes do candomblé ainda utilizam a Lagoa do Abaeté em cultos religiosos, prática bastante antiga. Aliás, um aspecto peculiar do bairro de Itapuã são as manifestações religiosas e culturais existentes.

A Lavagem de Itapuã é um momento particular para o bairro: caracteriza-se por representar a cultura de massa vigente, com valores hegemônicos impostos por grupos sociais específicos em frente à Igreja da Nossa Senhora da Conceição. As portas da Igreja ficam fechadas, enquanto os adeptos da fé sincrética fazem uma "faxina espiritual" na entrada do prédio. Nos últimos anos, a festa foi "modernizada" com uma vasta fila de trios elétricos, que começaram a dar início, desta forma, à abertura do carnaval de Salvador.

Hoje, as festas de Itapuã são acompanhadas da violência e da venda de drogas ilícitas. Os noticiários sempre mostram agressões e mortes entre policiais e bandidos, onde quase sempre os moradores do bairro são as maiores vítimas. Aqui, vale ressaltar que a maioria da população residente em Itapuã pode ser caracterizada como de baixa renda.

Para defesa da manifestação cultural de seus moradores, originaram-se em Itapuã blocos negros, como o bloco afro Malê Debalê, o grupo As Ganhadeiras de Itapuã, a Festa da Baleia, além de apresentações de grupos de capoeira e o fortalecimento do candomblé como identidade religiosa do bairro.

O grupo afro Malê Debalê, criado em 23 de março de 1979 por um grupo de moradores que almejavam ver o bairro de Itapuã representado no carnaval baiano, é um exemplo histórico representativo da forte identidade negra do bairro. Faz referência aos escravos africanos das etnias hauçá e nagô, de religião islâmica e responsáveis pela Revolta dos Malês em 1835, que escolheram o Abaeté como principal refúgio na cidade. Também de forte cunho afro, as Ganhadeiras de Itapuã, grupo formado por músicos, mulheres e crianças da comunidade que cantam e sambam, incorporando, na sua performance, elementos cênicos, relembrando a situação vivida pelas negras de ganho em Salvador, no século XIX. A manifestação acontece no dia 24 de janeiro.

Itapoã é um bairro que chama atenção pela representatividade da cultura negra e pelas praias encantadoras, mas “passar uma tarde em Itapuã” já não é a mesma coisa. A Itapuã de Vinícius e Toquinho, famosa pelo seu romantismo e serenidade, apresenta hoje um cenário bastante diferente daquele que inspirou os compositores. O cenário marcado pela presença de pescadores embriagados pelo mar e pelo doce embalo dos coqueirais encontra-se um tanto quanto modificado. O bairro transita entre a tradição e a modernidade. De um lado, ruas inteiras de moradores que nasceram e cresceram no local, e que lembram, com saudade, os velhos tempos, com seus banhos na Lagoa do Abaeté e a tranquilidade das portas abertas; de outro, conjuntos de habitações que cresceram desordenamente no local: são invasões e baixas que em nada lembram as inspiradas canções de Caymmi. De bairro tradicional e pacato, Itapuã passou a ser um dos bairros mais populosos de Salvador. Os registros de crimes e atos brutais de violência estampam as páginas dos jornais diariamente. A mudança do cenário é registrada por diversos informantes durante as entrevistas. A informante ITA-07 assinala:

Nasci e me criei aqui. Itapuã já foi bom. A gente dormia de porta aberta, ia po morro, esse morro aí grande, a gente brincava, tinha a lagoa do dois doido, a gente ia, tomava banho, num tinha poblema nenhum. (...) Hoje em dia, a gente se encontra prisionera. Porque a gente num pode ficá com porta aberta, num pode recebê os amigo. Tem os amigo... num pode vim uma pessoa de fora.

Em alguns pontos, a situação é tão crítica, que o acesso livre foi expressamente desaconselhado pelos moradores.

E é por isso que eu tô dizeno: Num desça, num vá. (...) Não, eu só tô dizeno... é como eu disse a ela de manhã, digo, num tô assustano, mas eu acho que vocês num deveria ir se arriscá tanto.

As 20 entrevistas realizadas cobriram os eixos centrais da população de Itapuã. Na praia, foram registradas as experiências e angústias dos pescadores da Rua K. A tradicional colônia com mais de 700 pescadores profissionais cadastrados, que ainda serve de fonte de renda para muitos pais de família, funciona num regime de associação que procura organizar e viabilizar a pesca no local, a qual, segundo os moradores, está cada vez mais difícil. Os principais integrantes desse grupo são homens das faixas 2 (de 45 a 55 anos) e 3 (acima de 65 anos), isto porque o oficio da pesca dos pais já não inspira mais os filhos, que agora, diante das possibilidades do centro urbano, buscam outras alternativas. Na parte mais central do bairro, Rua Alto da Bela Vista, Guararapes e Ladeira do Abaeté, registramos as histórias de moradores tradicionais, que presenciaram passo a passo as mudanças pelas quais o bairro passou e que contam, com ar de saudade, as boas histórias da uma Itapuã com cara de interior, marcada pela tranquilidade. Das áreas periféricas, Baixa do Soronha e Nova Brasília, foram colhidos os depoimentos de moradores cercados pela dura realidade do tráfico, que vivem num cenário bem distante da Itapuã dos cartões postais. São mães que perderam seus filhos para o tráfico, famílias que vivem amedrontadas pelo risco eminente de um tiroteio e cidadãos à margem da sociedade, vivendo em condições precárias de segurança e infra-estrutura.

A realização das entrevistas contou com o apoio de alguns líderes locais, como chefes da colônia de pescadores, diretores de escolas e moradores, no entanto foram enfrentados alguns percalços. Dentre os problemas encontrados, destaca-se a dificuldade de encontrar indivíduos que preenchessem os critérios definidos previamente. Foi muito difícil encontrar informantes jovens, e mesmo adultos, sem acesso à escolarização, haja vista o forte incremento dos programas de alfabetização na capital do estado. Em geral, os jovens menos escolarizados habitam as áreas mais periféricas, em geral, áreas onde estão instaladas as “bocas”, alvo de conflitos e tiroteios. A violência foi um dos principais problemas encontrados pelos documentadores, os quais, desavisadamente, acabaram entrando em áreas extremamente perigosas. O risco torna-se flagrante com o fato de que, antes mesmo da conclusão do corpus, um jovem informante ter sido assassinado a tiros durante uma briga. Algumas entrevistas foram proteladas, tendo em vista a realização de festas locais e de conflitos.

A experiência de realizar entrevistas em um centro urbano mostrou-se sensivelmente diferente da experiência já concluída pelo Projeto nas comunidades do interior. No centro urbano, os informantes se mostram mais desconfiados e, embora não tenha sido regra, menos receptivos. Além disso, no interior, os tópicos abordados apresentavam temas mais amenos, como as histórias pessoais e os famosos “causos”. As entrevistas do bairro de Itapuã giraram basicamente em torno da história pessoal, política e, sobretudo, da violência, que faz parte do cotidiano de quase toda a população. Ademais, por se tratar de um bairro tradicional e turístico, muitos informantes contaram a história do bairro.

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