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Análises Sociolinguísticas do Português Popular do Interior do Estado da Bahia

 

As análises variacionistas de tópicos da morfossintaxe do português popular do interior do Estado perseguiram dois objetivos gerais: por um lado, avaliar o grau de influência do contato entre línguas em contraste com o que foi observado nas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas; por outro lado, mensurar o processo de difusão dos modelos lingüísticos urbanos cultos ou semi-cultos para o interior do país. Por isso, a constituição de duas amostras em cada município: uma na sede, outra na zona rural. Partiu-se da hipótese de que os padrões de fala observados na sede do município seriam mais próximos do padrão urbano culto, ou semi-culto, do que os observados na zona rural, na medida em que a influência dos meios de comunicação de massa, da escolaridade e de tudo o que compõe o universo da urbanidade tenderia a atingir antes a sede do município e, só depois, a sua zona rural.

Analisando a concordância verbal junto à terceira pessoa do plural, Silva (2005) encontrou um continuum interessante para os dois parâmetros considerados na análise sociolinguística do português popular do interior do Estado da Bahia. A freqüência de aplicação da regra de concordância verbal, que foi de 13% na comunidade afro-brasileira de Cinzento, sobe para 16% na zona rural do município de Poções, chegando a 26% na sua sede. Por um lado, observa-se que a freqüência de aplicação da regra de concordância é menor na comunidade afro-brasileira de Cinzento, que provavelmente foi em sua origem uma comunidade quilombola, do que na comunidade de Morrinhos, uma comunidade rural não marcada etnicamente. Isso corrobora a hipótese de que as comunidades mais diretamente afetadas pelo contato entre línguas têm a morfologia ligada às regras de concordância mais comprometida, estabelecendo-se uma relação empiricamente motivada entre o grau de contato entre línguas e a perda das regras de concordância no português brasileiro. Por outro lado, a maior freqüência de aplicação da regra de concordância na sede do município confirma a hipótese de que a difusão dos padrões cultos para o interior de Brasil atinge inicialmente os pequenos centros urbanos para depois se expandir para a zona rural.

Analisando a concordância verbal em relação a 1ª pessoa do plural representada pelo pronome canônico nós, Lucchesi (2007) encontrou um cenário muito mais impressionante. Enquanto a freqüência de aplicação da regra de concordância verbal é de apenas 18% nas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas, a sua freqüência no português popular do Município de Santo Antônio de Jesus é de 72%, chegando a 78% na sede do município e ficando em 67% na zona rural. Ou seja, a diferença no nível de uso da regra entre as comunidades afro-brasileiras e a fala popular não-marcada etnicamente é de quase cinqüenta pontos percentuais, o que evidencia fortemente a relação entre o contato entre línguas e a perda de morfologia flexional de pessoa e número do verbo. Entretanto, apesar de a concordância verbal junto à 1ª pessoa do plural ser maior do que com a 3ª pessoa do plural (cf. Lucchesi, 2007), os números de Santo Antônio de Jesus impressionaram, tanto que já está prevista uma análise da concordância verbal junto a 1ª pessoa do plural no município de Poções. O elevado grau de aplicação da regra de concordância em Santo Antônio de Jesus pode decorrer, como já se disse aqui, da sua proximidade com a capital do Estado e de sua intensa atividade comercial. Espera-se, portanto, que em Poções o nível de aplicação da regra seja menor, em função de sua maior distância da capital de sua reduzida atividade comercial. O cotejo dos dois municípios deve lançar mais luzes sobre o processo de difusão dos padrões lingüísticos urbanos para o interior do país.

Em sua análise da concordância de gênero e número em estruturas passivas e de predicativo do sujeito, Antonino (2007) observou a freqüência de aplicação da regra de concordância no português popular do interior do Estado como um todo, reunindo em seu processamento quantitativo os dados retirados das amostras de Santo Antônio de Jesus e Poções. Comparando os resultados desta análise com os obtidos por Lucchesi (2008) junto às comunidades rurais afro-brasileiras isoladas, constatou-se mais uma vez uma maior freqüência de aplicação das regras de concordância no português popular não marcado etnicamente, o que confirma a hipótese de que as comunidades afro-brasileiras isoladas, por estarem em sua origem mais diretamente ligadas às situações de contato entre línguas, exibem uma maior erosão em sua morfologia flexional. Nas comunidades afro-brasileiras, o uso da regra de concordância de número (e.g., as coisa estão caras ~ cara; meus parentes não foram atendidos ~ atendido) está praticamente ausente, com uma freqüência de apenas um por cento. Essa freqüência sobe um pouco no português popular do interior do estado, passando a quatro por cento. Já em relação à concordância de gênero (e.g., as coisa estão cara ~ caro; a criança não foi atendida ~ atendido), a freqüência de aplicação da regar cai de 94% no português popular não marcado etnicamente para 81% nas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas.

Por outro lado, comparando esses resultados do português popular e afro-brasileiro com os resultados de análises do comportamento lingüístico de falantes urbanos escolarizados, constata-se mais uma vez o cenário da polarização sociolingüística do português brasileiro. Entre os falantes de nível médio e básico de escolaridade das cidades do Rio de Janeiro e de Florianópolis (cf. SCHERRE, 1991, e DIAS, 1996, respectivamente), a freqüência de aplicação da regra de concordância de número em predicativos e estruturas passivas excede o nível de aplicação da regra no português popular do interior do país em quarenta pontos percentuais, em média. E a ausência de estudos sobre o tema revela que nessas variedades, diferentemente do que se observa no português popular do interior do país, a variação na aplicação da regra de concordância de gênero em estruturas passivas e de predicativo do sujeito é irrelevante.

A perda da morfologia flexional no português popular do interior do país, como um reflexo histórico do contato entre línguas, também se confirma em relação à morfologia do imperativo. Ao lado da forma canônica de imperativo derivada do subjuntivo (pegue você o trabalho/ não pegue você o trabalho), predomina no português falado do interior do estado da Bahia uma forma menos marcada, associada ao modo indicativo (pega você o trabalho/ não pega você o trabalho). No caso do português afro-brasileiro, ou mesmo no português popular rural, pode-se pensar que as formas canônicas não chegaram a se firmar, e o que se vê são as formas básicas do indicativo sendo usadas com valor imperativo atribuído por fatores prosódicos e pragmáticos. O uso de formas não marcadas do indicativo em lugar das formas marcadas do subjuntivo é muito elevado no português popular do interior do Estado, comparado com o padrão observado entre falantes medianamente escolarizados da capital, entre os quais o uso das formas não marcadas não atinge trinta por cento do total (cf. SAMPAIO, 2001). E, no cenário do português popular, confirma-se mais uma vez o continuum previsto inicialmente. A perda da morfologia é mais intensa nas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas, atingindo 86% do total de casos. No português popular dos municípios de Santo Antônio de Jesus e Poções, também predomina a forma não marcada (75 e 65%, respectivamente). Destaca-se, no entanto que os centros urbanos desses municípios exibem um índice mais elevado de formas morfologicamente marcadas em comparação com a zona rural (35, para aquels, e 25%, para esta). Assim, concluímos que a forma canônica está sendo introduzida no português popular pela influência do grande centro urbano, num caminho paralelo ao continuum de urbanização (BORTONI-RICARDO, 2006). Se esses resultados, por um lado, ratificam o processo de difusão linguística, por outro, reafirmam, por conta da grande diferença quantitativa com relação ao padrão urbano culto, a polarização sociolinguística do Brasil (cf. LUCCHESI, 2001, 2002 e 2006). Portanto, reitera-se o continuum, apresentado na Figura 1, em que se manifestam as duas tendências antagônicas que definem as tendências contrárias no interior do português popular do Brasil: os reflexos históricos das mudanças induzidas pelo contato entre línguas, de um lado, e perspectiva definida pela difusão dos padrões urbanos cultos, de outro.

 

Frequência de uso de formas do indicativo com valor imperativo.

Figura 1: continuum do português popular do interior do Estado em contraste com o padrão semi-culto da capital.

 

Por outro lado, em algumas variáveis lingüísticas, o português popular e português afro-brasileiro apresentam um cenário de variação similar, com as mesmas tendências de mudança. Tal é o caso da forma do pronome pessoa da 2ª pessoa do singular. O pronome você predomina amplamente sobre o pronome tu, na situação das entrevistas, com quase noventa por cento das ocorrências, tanto nas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas, quanto no português popular de Santo Antônio de Jesus e Poções. Porém, nas duas variedades, observou-se uma curva ascendente na variável faixa etária, o que indica uma implementação do uso do tu entre os falantes mais jovens. Nesse caso, as mulheres estariam liderando uma tendência que afasta o português popular do interior do padrão urbano, no qual o tu está praticamente ausente. O uso do você é favorecido nos casos de referência genérica e afetado positivamente pelo paralelismo discursivo (cf. SCHERRE; NARO, 1993). Já no plano diatópico, o tu é mais freqüente em Santo Antonio de Jesus do que em Poções (com 20 e 09% do total, respectivamente). Já os resultados da variável identidade do interlocutor revelaram que a alternância entre o tu e você está relacionada ao nível de formalidade do discurso. Com membros da sua comunidade, com os quais o falante, por suposto, tem mais familiaridade, o emprego do tu é mais freqüente. Isso confirma a relação histórica do emprego do você como tratamento de maior formalidade em relação ao tu, no português do Brasil e de Portugal.

Ainda estão em curso, análises variacionistas de aspectos relevantes da gramática do português ppular do interior do Estado. Com essas análises, pretende-se configurar um panorama sociolingüístico do interior do país, com base nos dois parâmetros que balizam esta análise: os reflexos históricos do contato entre línguas, por um lado; e a difusão lingüística a partir dos grandes centros urbanos, que define as tendências atuais dos processos de variação e mudança em curso. Esse conjunto de análises deverá ser organizado na forma de um livro, com o título de A Língua do Interior: o português popular do interior do Estado da Bahia. Nesse volume estarão reunidas as análises que compõem a 2ª Etapa da pesquisa do Projeto Vertentes, da mesma forma como os resultados da 1ª Etapa foram publicados no livro O Português Afro-Brasileiro.

 

 
 

 

REFERÊNCIAS

ANTONINO, Vivian (2007). A concordância nominal em predicativos do sujeito e estruturas passivas no português popular do interior do Estado da Bahia. UFBA: Dissertação de Mestrado, ms.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris (2006). Educação em língua materna: a sociolingüística na sala de aula. São Paulo: Parábola.

DIAS, Juçá F. V. (1996). A concordância de número nos predicativos e particípios passados na fala da Região Sul. Florianópolis: UFSC, Dissertação de Mestrado, ms.

LUCCHESI, Dante (2001). “As duas grandes vertentes da história sociolingüística do Brasil”, D.E.L.T.A., São Paulo: 17: 1, 97-130.

LUCCHESI, Dante (2002). Norma Lingüística e Realidade Social. In: BAGNO, Marcos (org.). Lingüística da Norma. São Paulo: Loyola, p. 63-92.

LUCCHESI, Dante (2006). Parâmetros sociolingüísticos do português brasileiro, Revista da ABRALIN, vol. V, nº 1 e 2, 2006, p. 83-112.

LUCCHESI, Dante (2007). Alterações no quadro dos pronomes pessoais e na aplicação da regra de concordância verbal nas normas culta e popular como evidências da polarização sociolingüística do Brasil e da relevância histórica do contato entre línguas. Lingüística (ALFAL), Santiago, v.19, p.52-87.

SHERRE, Marta (1991). “A concordância de número nos predicativos e particípios passados”, Porto Alegre, Organon 18, p. 52-70.

SAMPAIO, Dilcélia Almeida (2001). Modo imperativo: sua manifestação/ expressão no português contemporâneo. 214 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal da Bahia, Salvador.

SILVA, Jorge Augusto A. (2005). A concordância verbal de terceira pessoa do plural no português popular do Brasil: um panorama sociolingüístico de três comunidades do interior do Estado da Bahia. UFBA: Tese de Doutorado, ms.

 
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