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Perfil linguístico e sociolinguístico das comunidades rurais afro-brasileiras

 

As análises sociolinguísticas da fala das comunidades rurais afro-brasileiras isoladas do interior do Estado da Bahia levadas a cabo no âmbito do Projeto Vertentes buscaram identificar e compreender os processos de variação e de mudança em curso nessas comunidades à luz do contexto sócio-histórico da sua formação, determinado sobretudo pelo fato de essas comunidades serem compostas em sua grande maioria por descendentes diretos de escravos africanos e por terem se formado em antigos agrupamentos de escravos foragidos, denominados quilombos.

No plano linguístico, buscou-se identificar os processos de variação que estariam mais diretamente ligados às situações de contato entre línguas. Nesse plano, uma estratégia das análises foi a de traçar paralelos com processos de mudança que caracterizam as línguas crioulas de base portuguesa, sobretudo da África, em virtude das semelhanças históricas que aproximam tais línguas do português afro-brasileiro. Por outro lado, foi feito também o cotejo com outras variedades do português brasileiro, para deslindar as diferenças quantitativas e qualitativas que constituem as balizas para a compreensão da formação histórica do universo sociolinguístico do Brasil, na medida em que pudessem indicar como as mudanças induzidas pelo contato se espraiaram, ou não, pelos diversos segmentos sociais. Assim, observaram-se diferenças qualitativas tanto em face da norma culta brasileira, quanto em face das demais variedades populares urbanas e rurais do Brasil; ou seja, observaram-se em algumas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas processos de variação, como os que afetam a concordância de gênero no interior do Sintagma Nominal (do tipo: eu trabalha no roça) e a concordância verbal junto à 1ª pessoa do singular (no mesmo exemplo eu trabalha no roça), que estão ausentes, não apenas da norma urbana culta, como também da grande maioria de variedades populares urbanas e rurais, particularizando as comunidades rurais afro-brasileiras isoladas como uma variedade linguística do Brasil em função desses processos específicos de variação diretamente relacionados com o contato entre línguas.

Por outro lado, em alguns dos processos de variação induzidos pelo contato que se difundiram por todas as variedades linguísticas brasileiras, afetando inclusive a norma culta – como no caso da variação na concordância verbal (exemplo: eles trabalha muito) e na concordância nominal de número (exemplo: meus amigo são valente), as análises buscaram identificar diferenças quantitativas que refletissem a maior intensidade com que as comunidades rurais afro-brasileiras foram afetadas pelo contato vis-à-vis às demais variedades cultas e populares do português brasileiro. Por fim, essas análises tiveram de enfrentar o desafio teórico de formalizar as maneiras como o contato afeta a estrutura da língua, através de um jogo dialético em que a análise se funda na teoria disponível no campo da crioulística para guiar a observação dos fatos, ao tempo em que as evidências empíricas obtidas possibilitam o avanço da reflexão teórica. Nessa frente de investigação, nem sempre foi possível estabelecer os nexos teóricos entre o contato e os fatos observados na estrutura da gramática das comunidades analisadas. Nesse caso, a contribuição desses trabalhos vem pela negativa, definindo aqueles aspectos da estrutura que, até então, parecem mais imunes aos efeitos do contato linguístico.

Uma outra forma de estabelecer uma relação histórica empiricamente motivada entre os processos de variação e mudança que se observam hoje nas comunidades rurais afro-brasileiras isoladas e as situações de contato linguístico massivo, abrupto e radical assenta na descrição do perfil sociolinguístico atual desses processos de variação e mudança. Os resultados das variáveis sociais na análise sociolinguística de vários aspectos da gramática das comunidades de fala analisadas revelaram um quadro de mudança em progresso no qual as formas mais características do contato linguístico estão sendo substituídas pelas formas do padrão urbano culto em função do processo de nivelamento linguístico que se processa por todo o interior do país pela influência dos grandes centros urbanos. Tal padrão de mudança desautoriza qualquer visão de uma deriva secular que fosse gradualmente erodindo as marcas flexionais da língua ao longo de inúmeras gerações. Ao contrário, o que se vislumbra é um processo histórico bem definido, no qual o contato linguístico produziu uma forte erosão gramatical até o século XIX e, a partir daí, com crescente intensidade, principalmente a partir de meados do século XX, foi se implementando a recomposição de algumas marcas flexionais e mecanismos gramaticais, em função da integração dessas comunidades ao sistema socioeconômico do país.

No plano mais geral da história sociolinguística do Brasil, a maior contribuição da pesquisa realizada pelo Projeto Vertentes está em revelar como o contato entre línguas afetou particularmente uma variedade da língua portuguesa transplantada para o continente americano; variedade esta aqui individualizada e denominada português afro-brasileiro. Nesse sentido, retrata como as desigualdades da sociedade brasileira se refletem no plano da língua, configurando a polarização sociolinguística do país, que tem profundas raízes históricas, nas quais a integração na sociedade brasileira de milhões de africanos escravizados ao longo de mais de três séculos desempenhou um papel decisivo. Nesse amplo cenário sociolinguístico do Brasil de hoje, os padrões coletivos de comportamento linguístico das comunidades rurais afro-brasileiras isoladas resultam de dois processos sócio-históricos contrários, que acabam por definir as feições de toda a norma popular brasileira. Por um lado, estão as forças invisíveis de um passado obscuro do qual os efeitos do contato ainda se fazem sentir como ondas que se propagam sob a superfície do mar. Por outro lado, estão as mudanças que se expandem com a difusão dos padrões urbanos para todas as regiões do país, como as correntes de vento que definem a direção das ondas na superfície do mar.

O estudo das outras variedades populares do interior do país e das grandes cidades, que constituem as etapas 2 e 3 da pesquisa do Projeto Vertentes, poderá ampliar os horizontes desse cenário, identificando o vetor em direção ao padrão urbano culto que caracteriza a norma popular brasileira atualmente. Por outro lado, o cotejo entre outras variedades populares e as comunidades aqui analisadas poderá trazer novas evidências empíricas que ratifiquem, alterem ou ampliem os achados desta pesquisa, que focaliza os efeitos do contato entre línguas na história sociolinguística do país.

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